Publicado por: Lucylle France | agosto 10, 2007

O Caso do Porta-revista

200331903-001.jpgHá algum tempo, vi num catalogo de uma loja tipo “Leroy Merlin” um porta-revista muito legal, de tecido, cheio de bolsos.

Como meu hobby principal é bordar, e estou me digladiando com uma toalha de mesa que comecei a bordar antes de casar-me (e que provavelmente termino antes das bodas de diamante), num impulso “a lá Becky Bloom”, decidi comprar uma para mim, e outro para presentear minha mãe, para que ela guardasse as lãs e linhas de crochê e tricô e usar os bolsos para guardar as agulhas.

Pois bem, hoje visitei a loja. Rodei a bendita loja de cabo a rabo, e nada  do porta- revista. Passava batido nos corredores destinados a ferragens & ferramentas, tintas, madeira e tudo mais e gastava o pavimento andando de lá para cá, nos corredores de decoração e organizadores. Nada. Em meio a caixas, cortinas, papéis de parede, nem sinal do porta-revista.

E, como é praxe do francês, você é totalmente invisível para os funcionários de determinado estabelecimento. Não espere a gentileza e a eficácia de um brasileiro, americano, alemão no atendimento. Esqueça. O francês, apesar de ser este o trabalho do sujeito, vê aquele que precisa dos seus serviços, um intrometido na vida dele, que rouba preciosas horas de descanso e relaxamento em pleno horário comercial.

Depois de inúmeros “Monsieur, s’il-vous-plait, vous porriez m’aider!”, primeiramente pronunciado com um sorriso de acompanhamento, depois seguido de um grande « vai se catar », devidamente pronunciado em bom português, um desavisado funcionário vem ao meu socorro: ” Ta no corredor de decoração, madame, lógico!”.

Mentalmente respondo : Não, não é lógico. O porta-revista é para organizar, não para decorar. Eu sim, assim que meter as mãos nos ditacujos, vou bordá-los com pedrarias, mas sem isto, ele é para organizar, oh “Eisntein”. Quando na verdade, sorrio : Monsieur, eu já percorri todo o setor e não vi nenhum!

Por acaso não estaria no corredor de Organizadores e Caixas??! – replica o funcionário, com cara de quem havia descoberto a pólvora

– Não senhor, eu já estive por lá e não encontrei (mentalmente: nos últimos 30 minutos fiquei andando de lá para cá xingando  o famigerado do responsável do setor que me ignorava totalmente e não vi merda de porta-revista algum!)

Então a senhora esta enganada, pois não temos porta-revista. Responde triunfante o candidato a premio Nobel da Mediocridade.

Por acaso, então, a foto deste produto foi colocada por engano no catalogo da sua loja? Perguntei educadamente ao “gênio”, mostrando a foto, impressa com todas as cores bem no meio da pagina do catalogo da loja.

Provavelmente, pois eu nunca vi este produto aqui. Mas espere um pouco aqui que eu vou buscar alguém para lhe ajudar.

– Até que enfim uma resposta plausível – pensei comigo. E fiquei lá, plantada, em meio ao corredor, levando buzinadas de um operador de empilhadeira enlouquecido, que passava a todo instante e me xingava por estar “atrapalhando” o caminho dele (como se não houvesse um outro caminho a fazer ou quem sabe, num esforço hercúleo do cérebro, desviar de mim???.

Dez minutos se passaram. Avisto o “Eisntein” voltando.

– Madame, esqueci-me da senhora! Não achou ainda?

Nesse momento, surge a resposta em minha mente: Sim, ele saiu sozinho do lugar onde estava guardado e veio até aqui, me encontrar, não ta vendo uns 4 na minha mão?

– Me contenho e respondo: Não, fiquei esperando, como você pediu.

Lógico que no meio tempo, num acesso consumista, comprei uma caixa que até agora não sei o que fazer com ela e um inseticida para minhas plantas, que estão lindas e saudáveis na jardineira de casa. Mas esta rápida operação ajudou a passar o tempo e dar a impressão de que fiz algo mais produtivo do que ficar parada no meio do corredor olhando para um monte de caixas.

– Então a senhora me desculpe, mas eu não sei onde fica este porta-revista. Pergunte para o encarregado dos pisos e azulejos, que ele sabe.

A esta altura do post, você deve estar pensando: O que os pisos e azulejos tem a ver com o porta-revista? 

Mas, como eu  sei que aqui nada tem lógica, arrisquei. E estava certa. Aparentemente, o encarregado do setor de decoração e organizadores e caixas não sabe onde fica o famigerado porta-revista, mas o encarregado de pisos e azulejos sabe.

Fica na fileira numero quinze, no final dela, perto da parte de ganchos e afins, madame. Se não tiver, a senhora pode se dirigir a recepção e fazer a encomenda que em 3 dias ele chega, responde o funcionário de pisos e azulejos.

Fui direto. Os produtos relacionados aquele item, estavam lá, mas realmente, o estoque de porta-revista estava a zero.

Conforme instrução, fui até a recepção. Lá havia duas funcionarias, alegremente atendendo um francês, muito bonitão, por sinal. Este, fez sinal a uma das funcionarias, avisando da minha presença, que lógico, ignorou-me totalmente. Depois da saída de George Clooney Croissant, chega a funcionaria com mau-humor e me explica que quem deveria fazer a encomenda, é o encarregado do setor de decoração, organizadores e caixas.

– E lá vamos nos novamente, pensei comigo. Sorrio e explico da minha aventura dentro da loja. A funcionaria, com “aquela boa vontade típica de francês, agarra o telefone e me encarando, disca o ramal.

– Tem uma madame aqui que quer encomendar dois portas-revistas. Você pode fazer isto?

Opa! Pensei comigo! Até que enfim, vou poder ter meu porta-revista todo bordadinho, lindo enfeitando minha sala!

Preparo-me para fornecer todos os dados necessários: nome, numero de RG, tipo sanguíneo, time que torço, o que comi no almoço, quando pasma, vejo a funcionaria desligar o telefone.

A madame pode ir até o setor que o encarregado esta lá esperando. Mas a senhora não vai poder entrar novamente, porque a senhora comprou estes itens ai, já passou pelo caixa e não pode entrar novamente na loja com eles.

Posso deixar aqui com você então?

– Não, não pode.

– Então como vou fazer?

– Não sei, mas o encarregado esta lá esperando para registrar seu pedido.

– Você não poderia ligar novamente e passar os dados do meu pedido?

– Não, não posso, porque aqui é só a recepção, eu não posso fazer o pedido. Quem faz é o encarregado do setor.

Nem passar o pedido? Você não ia fazer o pedido, ou seja, colocar o pedido no sistema, ia somente passar o código do produto, meu nome, telefone. Só isso.

– Não, porque quem faz o pedido, é o encarregado do setor. Aqui é só a recepção. Minha função é resolver o problema dos outros.

– Ta, mais você criou um grande para mim. Eu quero fazer a encomenda do produto, não posso entrar e você não quer ligar para o encarregado para passar os dados do pedido.

– Senhora, aqui é a recepção, eu estou aqui para ouvir os problemas e solucioná-los. O pedido quem faz é o encarregado. A senhora não pode entrar para fazer o pedido, então não sei como a senhora vai resolver o problema.

 Virei as costas e sai da loja. Lógico que mentalmente, solicitei a dedicada funcionaria a armazenar o porta-revista  no “derriére” dela.


Responses

  1. Nossa, que complicação. Parece até coisa de telemarketing… muito bom o texto, muito divertido. Parabéns!

  2. Eu tinha mandado todo mundo pra puta que os pariu, num francês bem educadinho…

  3. Lady Boderline, eu nao xingo em frances, mas distribui bastante “bunda mole”, “mosca morta” e afins, em portugues… sorrindo, com a cara mais amavel do mundo… e recebo sempre um “merci madame, bon journé”… xingo e ainda recebo agradecimento…

    No proximo posto conto a continuaçao do drama da minha maquina de lavar, que ha dois meses esta no conserto e ninguém sabe dar conta de onde ela esta…. gente bunda mole!


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