Publicado por: Lucylle France | novembro 18, 2007

Questao do ovo ou da galinha

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Recebi um comentário da leitora Ana Andréa, em “Nacionalidade Francesa não é pedigree, minha filha!” , cuja resposta não poderia deixar de postar aqui. Ela não esta na integra, mas a essência da reflexão que fizemos junta, não pode deixar de ser expressa no meu blog.

 A reflexão seria sobre a forma de ser dos franceses e a tão famosa xenofobia (aversão por estrangeiros) que eles possuem. Sim, é sabido que eles adoram ver os estrangeiros, mas somente quando eles estão na fila de embarque no Charles De Gaule, rumo a casa.

 Sabe-se que o que mais enfurece é ver um estrangeiro adquirir a nacionalidade francesa, ou o filho do estrangeiro ter a nacionalidade francesa.

Mas vamos defender o ponto de vista do francês, o lado do ovo…

 Primeiro quanto à invasão dos turistas. Lógico que ha um grande choque cultural. O francês é silencioso. Adora discutir sobre tudo e dificilmente você sai com um grupo de franceses para conversar como fazemos no Brasil: falar sobre tudo e sobre nada, abrindo uma grande torneira de asneiras que acaba numa noite divertidas, leves e cheias de risadas.

 Não. O francês gosta de discutir filosoficamente sobre tudo, e depois de horas discutindo o sexo dos anjos, acaba concordando com você. Mas gosto não se discute, não é mesmo?

Voltando a vaca fria. Eles são silenciosos, reservados, distantes. São geralmente regrados, são capazes de fazer uma refeição sem família sem ver a mãe correndo atrás dos filhos com o prato na mão, ou gritar com eles o tempo todo para ficarem quietos na cadeira.

 Alias, foi uma das primeiras coisas que me encantou aqui. Quando são pequenos, os franceses são muito educadinhos e sorridentes. Sem contar que são crianças lindas!

 Já imaginaram você estar tranqüilamente almoçando, apertado naqueles bistrôs (porque francês que é francês se espreme naqueles bistrôs, nas mesas que ficam nas ruas, e fazem suas refeições sentindo cheiro de escapamento de carro e todo mundo raspando a roupa na comida deles),  e chega um grupo de italianos, brasileiros, árabes, falando alto, com crianças correndo para lá e para cá..

Paris é superpopulada. Ninguém nega.E um verdadeiro zoológico em questão de nacionalidade. Então, são pessoas com costumes diferentes. E ai se da o grande choque cultural.

O francês pode ser arrogante, irônico, individualista. Mas não passa por cima de você de modo algum. Pode te empurrar dentro do metro para sair, mas sempre diz : “Pardon” (com licença em francês). Mas ha povos que levar junto você num empurrão, é a coisa mais natural do mundo….

 Pegar metro de manha, num frio negativo, com um bando de turistas falando alto, passando com a mochila na sua cara, mapas, gritando com o companheiro lá no final do vagão e geralmente, porque eles não sabem onde tem que descer, ficam justamente na porta de entrada do vagão e não se mexem nem se você gritar “fogo!”… ninguém merece!

Mas não vamos nivelar todos os franceses pelo parisiense. Se você chegar na região do Vale de Loire, do Perigord Noire, já é outra coisa, totalmente diferente.

É sabido que grande parte da renda da França vem do turismo, e não é a toa que Jacques Chirac, a um certo momento, implorou para os franceses pararem de tratar mal os estrangeiros, porque esta renda estava caindo, devido à queda de turistas no pais. Em algumas regiões, nem precisava propaganda. Eles já são a delicadeza em pessoa!

Mas já em Paris…a gente percebe que é uma simpatia forçada mas melhor isto que levar chute a toda hora, não é mesmo? 

Agora se você tem olhinhos puxadinhos e entrar carregando milhares de sacolas Gucci, Prada, menina, as vendedoras estendem o tapete vermelho para você!!!

Mas isto é cultural. O Francês é brutalizado, e isto me surpreendeu quando cheguei aqui, pois justamente é o pais que criou a etiqueta social, não é mesmo?   

Acredito que eles devem reclamar das mesmas coisas quando saem do seu pais, afinal, isto é choque cultural. Mas o que mais me surpreende é este orgulho bobo, e esta xenofobia instaurada no pais. 

Não nego que é um pais lindo. Visitei lugares cuja natureza me surpreendeu, e olha que eu sou macaca de auditório do nosso pais.

Lógico que não chega aos pés do nosso Nordeste, dos nossos Canyons do sul, mas não deixa de ser bonito. Ainda é um pais seguro e organizado. 

E tudo isto pode estar a um ponto de terminar (segurança, organização) devido ao alto numero de pessoas que vivem aqui.

E tem a questão social. Aqui é muito bem feita:

– O governo reembolsa grande parte das consultas médicas, exames e remédios. Se você contratar o que chamam de “mutuelle”, cujo valor é irrisório, você recebe o restante do valor que não é reembolsado pelo governo.

– Os seguros desempregos podem durar mais de um ano. O valor vai decaindo conforme o tempo passa, mas um cidadão consegue sobreviver até um ano sem trabalhar.

– Se você não tem condição de pagar um aluguel, existem dispositivos que o governo ajuda a pagar, ou os longements locatifs, onde você paga uma merreca por morar num apartamento do governo.

– Burocracia simples para qualquer papelada publica.

– Tem 3 filhos? Redução de impostos, descontos na compra de supermercado, vestimenta, até em compras de carros, e ainda por cima recebe um valor do governo, de acordo com seu salário.

– A mãe francesa pode parar de trabalhar e recebe por um bom tempo um valor do governo. Algumas ficam até 3 anos sem trabalhar, época que o incentivo acaba. Mas também foi preciso fazer isto para que a mulher francesa se animasse a engravidar. Todo o pré natal é garantido pelo governo, inclusive os exames de ultima geração, e não necessariamente estar sendo atendida por um médico de hospital

– São reembolsados pela “Securité sociale” seis inseminações artificiais e duas fertilizações in-vitro.

– Escola gratuita para todos. Um preço de uma Sorbone custa em média EUR 150,00 POR ANO em nível de licenciatura e um mestrado e doutorado custa em média EUR 300,00 POR ANO.  E este preço é tabelado, tanto faz você estudar numa Sorbone quanto na universidade em qualquer lugar da França.

Lógico que um sistema assim, numa superpopulação, tende a entrar no colapso. Por isso que os franceses gelam cada vez que chega um grupo de ex-colonias, ou alguém consegue a nacionalidade. Eles estão defendendo o pão deles, por isso, até conseguimos entender o porque desta tão famosa xenofobia.

Mas tem o outro lado…

Recrimino eles jogarem culpa nos estrangeiros, porque se você investigar bem, são eles que são os que mais “mamam” na teta do governo.

O estrangeiro tem medo de ser pego fazendo algo errado e perder seus direitos, salvo algumas exceções. Eu vivo com estrangeiros de todo o tipo, alias, meu circulo de amizade, carinhosamente falando, é um verdadeiro zoológico, tamanha são as diferentes nacionalidades. E não vejo ninguém burlando as regras, de forma alguma. Já minha amiga namora um francesinho, pedreiro, que esta ha mais de um ano desempregado.Ela perguntou quando ele vai procurar emprego. Ele respondeu que só vai se mexer quando acabar de receber o dinheiro do governo, afinal, “esta dando para pagar minhas contas, porque eu vou acordar cedo todos os dias?”.

Sim, um jovem de 20 e poucos anos já tem esta mentalidade, imagina quando chegar nos seus 30, ou 40….

Mas isto é herança da época da monarquia, onde os franceses esperavam a comida cair das mãos do rei. Aquela idéia de que o Rei (vide Presidente da Republica, atualmente) era o provedor do povo. E por muito tempo, com presidentes socialistas, esta idéia foi reforçada. Dai vem senhor Sarkozy, com mentalidade de Sec. XXI querendo levar uma nação inteira que ainda tem a mentalidade na Revolução Francesa.

Resultado? Greve atrás de greve…

Alias, o francês é um povo que esta justificando sua existência com a Rev. Francesa. Já ouvi muita gente daqui dizer que eles não precisam fazer mais nada da vida, porque já fizeram a REv. Francesa, que foi uma grande coisa para o mundo inteiro. Agora vem cá… será que o mundo precisava somente daquilo para mudar, ou será que estamos em constante modificação?

Então se perguntarmos friamente se eles são culpados por sentirem-se assim, não sei. Isto é um novelo de lá cuja ponta pode ser de origem do próprio sistema que eles criaram e o fizeram assim, a passos de tartaruga e refratários às mudanças, ou da grande invasão cultural que estão sofrendo e pondo em risco a verdadeira identidade do povo francês.

Então, não podemos afirmar que a culpa é do ovo, ou da galinha… pode ser dos dois.

Sem querer, acertei na metáfora: o símbolo da França é um galo


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