Publicado por: Lucylle France | abril 18, 2008

A Série Como NAO : Ensino

Ja contei que estou estudando na Sorbonne. Ao fim do curso, lanço olhares ansiosos no calendario para verficar quantos dias faltam para que acabe minha tortura.

Conto minha saga: Comecei o curso extremamente motivada, ja sonhando com um diploma grife Sorbonne orgulhosamente emoldurado em nosso escritorio. Termino o curso me rastejando, maldizendo e ansiosa para que meu calvario termine.

A principio, me detenho nas instalaçoes: Alguma mente brilhante acredita que uma sala que comporta 40 estudantes, pode perfeitamente comportar 70. Infelizmente, o conceito de mesa-beliche ainda nao foi desenvolvido, portanto, estudamos até hoje, ao fim de meses de cursos, alguma soluçao para acomodar mais 30 carteiras e cadeiras naquele metro quadrado designado.

Depois, existe uma verdadeira paranoia quanto a janelas abertas. A primeira recomendaçao de todo professor quando adentra a sala de aula, é que encerremos todas as portas e as janelas.

Depois, com o passar do tempo compreendo o porque desta paranoia: ao final do curso, voce tem vontade de se jogar pela janela. Talvez em algum passado, varios alunos tenham cometido este ato insano depois de serem metralhados com tanta incompetenca pedagogica.

Sem contar com a lousa: o professor consegue escrever utilizando somente metade dela. O apagador é uma esponja que tem que ser molhada para cumprir a tarefa de apagador.

Habito extremamente salutar: 70 alunos, encerrados numa sala sem ventilaçao, aquecedor ligado, respirando. Infelizmente, nao da para instituir um rodizio de respiraçao na sala de aula, portanto… ar vicidado, ambiente fechado, um odor horrivel no ar: suor, misturado com bafo, misturado com cheiro de comida, porque a mesma mente brilhante organizou os horarios de aula sem nenhum minuto de intervalo. Talvez porque ele pense que todos alunos estrangeiros sao como os franceses, que se habituram a comer alface e agua, ou suprimir uma refeiçao em detrimento a magreza.

Nossa salvaçao sao os poucos segundos que sobram entre um professor sair e o outro entrar na sala de aula: uma verdadeira operaçao ninja se instala para conseguirmos abrir rapidamente as janelas, enfiar as cabeças para fora e respirar um pouco do ar puro.

Resultado de meses convivendo neste ambiente: seguidos resfriados, sinusite e ultimamente ando desenvolvendo alguma claustrofobia.

Depois, vem o nivel de ensino: Confesso que grande parte das aulas eu preciso olhar insistentemente para minha carteira de estudante para verificar se realmente estou em algum nivel universitario.

Professora de Gramatica: Entra na sala, manda fechar todas as janelas para apreciarmos seu perfume estou-ha-alguns-dias-sem-tomar-banho, abre o livro de exercicios, anuncia o numero da pagina e do exercicio a ser feito, acomoda-se a mesa e ouve as respostas dos alunos.

Algum aluno cruel da uma resposta divergente do colega. Instaura-se uma polemica. Um outro terceiro, despota, vem com outra soluçao para o famigerado exercicio. A confusao esta armada. Soluçao da professora: olhar na parte de tras do livro do exercico para ver qual é a resposta e decide que aquela resposta é a certa.

Uma pesquisa mais detalhada da gramatica francesa faz-nos descobrir que as tres repostas fornecidas pelos alunos estao corretas. Mas a professora decide que a resposta dada no livro de exercicio é a correta. Pergunta-se porque. Ela responde porque é assim, frances nao é tao facil para ser entendido.

Boa…

Depois, levanta-se. livro de gramatica na mao, dedica-se a furiosamente copiar o que esta no livro, para a lousa.

Nao seria mais facil ela mandar a gente comprar o livro de gramatica também e mandar a gente ler em casa?

Professora de Linguistica: preocupa-se mais em deixar claro que nos, latino-americanos somos pobres, mesmo sendo casada com um argentino. A cada vez que ela menciona os erros de frances, ressalta que sao os paises pobres e lança longos olhares para nos, latino-americanos e para os que vem dos paises da Africa. Nao ha alguma didatica em sua aula. Se começa a discorrer sobre um assunto, apos mal exposto, passa para outro, e ao fim, retorna ao principio porque ela leu as anotaçoes anteriores e percebe que esqueceu de falar alguma coisa.

Ja chegou a ficar sem dar aula porque esqueceu as anotaçoes em casa. Aparentemente, ela desconhece o assunto e precisa delas. Infelizmente, aquele dia ela nao nos dispensou e nos torturou longamente dizendo o quanto Paris é linda e o quanto é otimo ser parisiense.

Se algum infeliz abre a boca ou ela decide que ele nao deve se sentar onde ele escolheu, dedica quase uma hora a reclamar que o tal aluno cortou a palavra dela, ou que sentou muito longe e nao compreende como um aluno consegue acompanhar o curso em se sentando longe dela.

Mesmo a gente tendo direito a 5 faltas em cada matéria, ela decidiu que se o aluno tem duas faltas, ja esta excluido do curso dela. E nao adianta argumentar. Ela termina o discurso dizendo que ela é a professora e ela é ela quem decide.

Digna atitude de uma professora de escola maternal.

Professora de Metolodogia da Escrita: confesso que lamento nao ter feito algum curso de leitura de mentes. Nao adianta qualquer soluçao sobre alguma frase proposta na aula a ser reescrita, ou algum texto a ser refeito. Voce tem que adivinhar como ela escreveria. O mesmo acontece nas provas.

Nao faça perguntas sobre o que ela esta explicando. Ela responde que ela nao é uma enciclopédia da lingua francesa e ainda lhe recrimina por ter lhe cortado a palavra e da-lhe minutos e minutos de sermao sobre o ato falho cometido do estudante.

Professor de Expressao Oral e Fonética: Este é o premio Nobel do COMO NAO ENSINAR. Sao duas aulas distintas, mas por azar, com o mesmo professor.  Quatro horas de um suplicio, devidamente solucionado ha pouco tempo, com um livro de palavras cruzadas, SUDOKU ou achar os 7 erros (meu preferido!).

O distinto professor em questao acredita que Expressao Oral é ouvir ele contar sobre assalto, estupro, violencia ou sobre seus casos amororos de juventude.

Raramente o aluno abre a boca. Ele toma conta do assunto e castiga voce por duas horas, com coisas totalmente inuteis ao proposito do curso. De que me vale saber que na linha RER tem gente que assalta, ou se ele perdeu a virgindade com 15 anos com um prostituta?

Quando ele nao se dedica a assuntos “nice-to-know“, ele nos agride com um discurso proclamado ao rei, ou durante a revoluçao francesa, e afirma que podemos usar aquele modelo, em apenas mudando algumas palavras, para qualquer ocasiao.Muito bem. Eu posso usar um discurso revolucionario, que incita o povo contra a burguesia, racista e machista,  num jantar de formatura ou durante um batizado ou casamento. Merci you!

Nao contente com este instrumento de tortura, ele faz 70 alunos repetirem por duas horas continuas o tal do discurso. E é neste ponto que saco meu livro de passatempos e focalizo toda minha energia em descobrir onde esta escondido o patinho naquele desenho, ou quais os 7 erros num desenho de circo. As vezes deixo fluir meu lado artistico e começo a colorir os desenhos.

Confesso que o SUDOKU me agonia um pouco. Quando vejo aquele bando de quadrinhos vazios e poucos numeros inseridos, entro em panico. Como ando ultimamente em extrema agonia, resolvi deixar de lado este esporte radical e a me dedicar a coisas mais amenas, como colorir.

Em seguida, vem o curso de Fonética. Se voce ler o prospecto do curso, ele propoe corrigir a pronuncia de cada aluno e a ajudar a diferenciar o sotaque de cada regiao da França. Na pratica, a historia é outra.

O tal do pseudo-doutor-da-Sorbonne ensina a transcriçao fonética. Muito util, se esta transcriçao fosse seguida de como pronunciar determinado fonema. Se o “e” é aberto ou fechado. Se o fonema nasal é deste ou daquele jeito. Até agora o unico sotaque que eu aprendi foi o de Marselha, o qual o professor faz inumeras gozaçoes. Mas se voce pergunta ao ditacujo qual é o sotaque da Picardie, ou do Norte, ele desconhece. E olha que esta passando um filme chamado Bienvenue Chez Les Ch’tis que justamente se passa no Norte da França e foi ai que eu aprendi o sotaque.

E como eu e maridao somos pé na estrada, aprendi muito mais sobre regionalismos e sotaques em nossas viagens do que em meses de curso deste distinto senhor.

Depois, como a criatividade do dignissimo senhor é muito curta, ele utilisa o mesmo discurso para que os alunos repitam. Mas estes alunos repetem em unissono. Sim. Curso de Fonética, o professor faz os 70 alunos repetirem o tal discurso por duas horas, em unissono. E este professor de diz capaz de perceber entre os 70, quem falou errado. Curiosamente, até hoje, fim do curso, nenhum dos 70 alunos cometeu alguma falta em sua aula, mas sao devidamente corrigidos na pronuncia em outras aulas. Por que sera?

Nesta hora eu continuo a exercitar meu cérebro ou minhas artes plasticas, olhar no relogio, na agenda e ansiar pelo fim do curso.

Mas nem tudo é perdido: Meu curso de Historia é nota mil! Sao 70 alunos, exprimidos numa sala de aula, olhos atentos, silencio sepulcral.

Além da gentileza desta professora, ela domina o assunto. Esta professora é capaz de contar, sem lançar algum olhar em qualquer anotaçao, toda a historia dos personagens da França como se estivesse contando alguma fofoca da vizinha ao lado.

Em poucos meses, conseguimos compreender nao so toda a historia deste pais, como a politica, o sistema administrativo, a cultura e a parte social. Nao se houve um pio. Somos hipnotizados por esta professora franzina que preenche a sala com a sua voz, sua alegria, seu entusiasmo, sua educaçao e sua competencia.

Mas existe uma explicaçao para tamanho talento: ela nao faz parte do corpo de professores da Sorbone. Ela foi contratada as pressas para cobrir um buraco. Na verdade, ela é professora de historia, do colégio em frente a Sorbone.

 


Responses

  1. Adorei o jeito que voce contou sua experiencia. Bem humorada e com um sarcasmo na medida certa.
    Minha experiencia com minha prof.a de estatistica do mestrado aqui nos EUA tb nao foi la essas coisas. Ela era tao mal organizada! Acho que quando o autor de um livro escreve, ele segue uma sequencia logica. Essa professora pulava capitulos, depois mandava ler os que haviamos pulado. Me sentia extremamente confusa, expecialmente quando no livro estava escrito “como foi explicado no capitulo anterior… “Mas pelo menos a infra-estrutura era muito boa. Ela mandava ler os capitulos do livro antecipadamente, mandava emails com as transparencias ANTES das aulas. Tambem tinha um “tira duvidas” online onde os alunos faziam perguntas e o assistente dela respondia as questoes. Todos os demais alunos tinham acesso ao historico de perguntas e respostas, o que ajudava outros que estavam com a mesma duvida…
    Enfim, a coisa fica feia quando se conhece mais de perto. Ficamos entusiasmados com um novo emprego ou um novo semestre de aula talvez por um mes?
    Beijocas e boa sorte na Sorbonne!

  2. Uau, e eu que achava a UFPR uma zona e os professores uns malas sem alça!

  3. E ai, tudo bem?
    Pretendo fazer uma graduação em filosofia na Sorbonne. Não encontro informações confiáveis sobre o método de acesso à universidade, e queria saber se você pode me ajudar. Busco informações sobre os exames de admissão e sobre a possibilidade de trabalhar legalmente. Peço que me envie um email, se possível. Obrigado, abraços!


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